Uma mesa, algumas tintas, café passado e gente que ainda não se conhece direito. Alguém pede um pincel emprestado. Outra pessoa mostra a cor que acabou de misturar. Entre uma tentativa e outra, a conversa começa.

 

Essa cena ajuda a entender o encanto dos encontros offline em torno de hobbies: existe algo para fazer com as mãos e um tempo reservado para estar com outras pessoas. A criação pode ser uma peça coletiva ou vários projetos individuais dividindo a mesma mesa.

 

Oficinas de cerâmica, rodas de bordado e encontros de pintura têm aparecido em pesquisas e reportagens como espaços para aprender e construir vínculos. O hobby oferece um assunto em comum, uma primeira aproximação e, quem sabe, um motivo para marcar a próxima vez.

 

Da inspiração na tela ao encontro de verdade

 

Muitas dessas experiências começam na internet: uma técnica que desperta curiosidade, um vídeo que dá vontade de tentar, uma comunidade que compartilha o mesmo interesse. O passo seguinte é encontrar companhia para viver aquilo presencialmente.

 

Uma pesquisa da Eventbrite com a dcdx, divulgada em janeiro de 2025, ouviu 2.000 pessoas de 18 a 35 anos nos Estados Unidos. Entre elas, 95% demonstraram interesse em explorar presencialmente interesses e comunidades descobertos online. Entre os participantes de eventos baseados em interesses, 84% disseram ter desenvolvido amizades próximas nesses encontros.

 

A plataforma também registrou crescimento, nos EUA, entre 2023 e 2024:

. 44% nos eventos de crochê;

. 34% nas aulas de confecção de joias;

. 35% nos eventos ligados à alimentação, incluindo jantares e oficinas culinárias.

 

A Eventbrite chama esses encontros de Fourth Spaces, espaços em que interesses digitais ganham vida presencial. Veja a pesquisa e a metodologia da Eventbrite.

 

Quando a aula vira uma turma de amigos

 

No Brasil, uma reportagem de Victoria Borges, publicada na Folha de S.Paulo em setembro de 2026, mostra como esse movimento aparece em ateliês paulistanos. No Ateliê Escola, em Santa Cecília, a cerâmica reúne adultos interessados em aprender e ampliar seu círculo social. No Nosso Ateliê, no Parque São Jorge, oficinas de cerâmica fria, aquarela e bordado também abrem espaço para amizades que continuam depois das aulas.

 

Uma das entrevistadas, Thayse Hoffmann, encontrou na cerâmica companhia para outros momentos da vida:

“Hoje almoçamos juntas todos os sábados e já viajamos juntas algumas vezes.”

 

A matéria relata ainda um aumento superior a 140% nas buscas por “cerâmica fria” em 2026 em relação ao ano anterior, segundo o Google Trends. É um sinal de curiosidade pela atividade; não corresponde, necessariamente, a mais inscrições em oficinas. Leia a reportagem e o depoimento completo na Folha.

 

Em Florianópolis, o encontro acontece no Clube do Hobby

 

Essa experiência também faz parte da nossa história. Na Casa Múltiplas, em Florianópolis, a Dear Friends participa do Clube do Hobby, que se reúne toda semana para criar algo novo.

 

 

Já tivemos encontros de pintura numerada, bordado por números e um ateliê de cerâmica coordenado pela ceramista Adriana Becker. Cada atividade oferece uma maneira de experimentar materiais, aprender e compartilhar o tempo com outras pessoas.

 

 

A proposta semanal dá espaço para descobrir um hobby e voltar a se encontrar. Entre tintas, linhas e argila, o fazer junto ganha um lugar na rotina.

 

Dani Nunes, participante do Clube do Hobby, chegou a convite de uma amiga. Depois de um período intenso de trabalho, queria experimentar coisas novas. Ao contar como foi seu primeiro contato com a pintura, ela destacou:

“Nunca tinha pintado. Desliguei de tudo, nem peguei no celular. Foi uma coisa muito boa, adorei a experiência.”

Dani Nunes, participante do encontro de pintura por número no Clube do Hobby

 

Criar em companhia tem muitos formatos

 

A expressão social crafting descreve encontros para fazer trabalhos manuais em companhia. Em Detroit, nos Estados Unidos, grupos apresentados pela Axios em junho de 2026 se reúnem para atividades como bordado e desenho. Alguns permitem que cada participante leve seu próprio projeto: o ponto em comum é compartilhar o tempo e o espaço.

 

Outra iniciativa, o The Offline Club, começou com um encontro em um café de Amsterdã em fevereiro de 2024. O projeto organiza experiências sem celular e declara, entre seus objetivos, “normalizar conversar com desconhecidos”, em tradução livre.

 

O movimento também aparece fora dos ateliês. Segundo o relatório Year in Sport 2025, os clubes de corrida no Strava se multiplicaram por 3,5 naquele ano. Os eventos organizados por clubes chegaram a 1,5 vez o volume do ano anterior. São dados da plataforma, mas ajudam a mostrar como interesses compartilhados podem organizar uma vida social presencial.

 

O que as pesquisas dizem sobre criar e se conectar

 

A importância de encontrar companhia ganha contexto em um dado da Organização Mundial da Saúde: aproximadamente uma em cada seis pessoas no mundo relata solidão. A estimativa, divulgada em 2025, mostra a dimensão da necessidade de conexão, embora não explique sozinha a procura por encontros criativos. 

 

Quanto ao fazer manual, um estudo publicado em 2024 na Frontiers in Public Health analisou dados de 7.182 participantes na Inglaterra. Praticar artes e trabalhos manuais esteve associado a maior felicidade, satisfação com a vida e percepção de que a vida vale a pena, mesmo considerando fatores como idade, saúde e emprego.

 

Helen Keyes, autora principal do estudo, resumiu um dos resultados assim:

“O artesanato e outras atividades artísticas mostraram um efeito significativo na previsão da percepção das pessoas de que sua vida vale a pena.”

 

O estudo encontrou associações entre essas práticas e bem-estar. 

Já uma pesquisa de 2015 acompanhou turmas de canto, artesanato e escrita criativa durante sete meses. Os participantes do canto se aproximaram mais rapidamente, enquanto os das outras atividades desenvolveram a conexão de forma gradual. Ao final, os grupos relataram níveis semelhantes de proximidade. O resultado ajuda a pensar no valor de voltar a se encontrar, dando tempo para a convivência crescer.

 

Como levar essa ideia para a sua mesa

 

Se você ficou com vontade de experimentar, um encontro pode começar pequeno. Estas são algumas sugestões para criar um ambiente acolhedor:

. Escolha uma atividade que aceite iniciantes. Pintura, colagem ou bordado com orientação simples dão um ponto de partida a quem está começando.

. Deixe claro o que levar. Combinar materiais, horário e duração ajuda todos a se prepararem.

. Abra espaço para novos rostos. Convide alguém que esteja chegando à cidade ou peça a cada amigo que traga uma pessoa interessada no hobby.

. Deixe cada pessoa criar no próprio ritmo. É possível conversar, observar ou se concentrar em silêncio, sem precisar terminar uma peça naquele dia.

. Combine uma próxima data. Um sábado por mês pode dar continuidade às conversas que começaram entre tintas e linhas.

 

Para escolher a atividade, você pode explorar nossas pinturas por números e nossos bordados, ou buscar inspiração no artigo 10 hobbies offline para descansar da tela e estimular a criatividade.

 

Um motivo para voltar a se encontrar

 

Uma peça pronta guarda as escolhas de quem a fez: a cor preferida, o ponto que precisou ser refeito, o detalhe que levou mais tempo. Quando criamos em companhia, ela também pode guardar a memória de uma conversa e de uma tarde compartilhada.

 

Na Dear Friends, gostamos dessa possibilidade de abrir espaço para um hobby no cotidiano e dividi-lo com outras pessoas. O convite pode ser simples: “vamos pintar juntos no sábado?”. A mesa se organiza, os materiais chegam e a convivência começa a ganhar tempo na agenda.

 

Para continuar essa conversa, leia também Como fazer amigos na vida adulta: 9 formas de criar conexões reais.