Janeiro costuma carregar um peso silencioso, apesar da esperança que a época representa. 

 

Enquanto as vitrines falam em recomeço, por dentro muita gente sente angústia, cansaço ou desânimo — mesmo sem saber explicar bem por quê.

 

O que os especialistas vêm dizendo é que essa sensação tem fundamento.

 

Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria, janeiro é um dos meses com mais queixas de ansiedade, insônia e irritabilidade. A campanha Janeiro Branco nasceu justamente para dar visibilidade a isso: o começo do ano é, sim, um momento sensível — e por isso mesmo merece mais cuidado.

 

 

O fim das festas e o início do vazio

 

Durante dezembro, nosso cérebro é bombardeado por estímulos: eventos sociais, rituais, mudanças de rotina. A recompensa emocional é alta: dopamina, serotonina, conexões afetivas.

 

Mas quando janeiro chega, esse sistema de recompensas entra em pausa.

 

Neurocientistas explicam que essa quebra abrupta no fluxo de estímulo pode causar um “efeito rebote” emocional — como uma ressaca afetiva. É natural sentir tristeza, tédio ou apatia nos primeiros dias do ano.

 

É o corpo pedindo um tempo para se reorganizar.

 

 

Metas demais, calma de menos

 

O símbolo da “folha em branco” tem poder, sim — mas também traz armadilhas.

 

Quando as metas de janeiro são muito rígidas ou idealizadas, o cérebro entra em modo de ameaça. O que deveria ser inspirador vira cobrança.

 

Estudos sobre ansiedade antecipatória mostram que pensar demais em tudo que “precisamos melhorar” ativa o eixo do estresse (hipotálamo-pituitária-adrenal), elevando o cortisol. Ou seja: antes mesmo de falhar, o corpo já está em alerta.

 

Psicólogos recomendam que as metas de começo de ano sejam mais processuais e flexíveis — como “cuidar melhor de mim aos poucos”, e não “me tornar uma nova pessoa até fevereiro”.

 

 

Dinheiro e estresse: uma dupla conhecida

 

O começo do ano, no Brasil, é também o mês das contas pesadas: IPVA, IPTU, material escolar, fatura de cartão de crédito pós-festas… Segundo pesquisa da Serasa, 88% dos brasileiros acham que as dívidas de janeiro afetam diretamente seu bem-estar mental.

 

Além disso, quase metade dos entrevistados pela Serasa admite que esse tipo de preocupação compromete o sono e o humor. Isso se alinha a um dado importante: ansiedade financeira é um dos principais gatilhos de estresse crônico no Brasil.

 

 

A volta à rotina sem tempo de aterrissagem

 

Sair das férias direto para a produtividade máxima é outro choque comum.

 

O corpo ainda está em ritmo de descanso, e de repente a rotina exige performance. O resultado: exaustão precoce.

 

Psiquiatras chamam isso de “síndrome pós-férias” — um período de irritabilidade, cansaço e baixa motivação logo na volta ao trabalho.

 

Especialistas recomendam uma transição gradual, com pequenas pausas e tempo para reorganizar corpo e mente, antes de exigir demais de si.

 

 

Janeiro Branco: um lembrete urgente

 

Foi por tudo isso que surgiu o Movimento Janeiro Branco: uma campanha nacional que nos convida a cuidar da saúde mental com o mesmo peso que damos às metas de produtividade.

 

Falar sobre ansiedade, buscar ajuda, acolher os sentimentos — tudo isso é parte essencial de um recomeço mais saudável.

 

 

O que você pode fazer, de verdade

 

Começar devagar — toda mudança no universo acontece de forma gradual e nem sempre linear. Entender que isso também se aplica a nós é fundamental para atravessar a transição com mais leveza.

 

Dormir melhor (ou pelo menos tentar) — estar atenta a pequenas práticas de higiene do sono faz diferença, especialmente nos momentos mais sensíveis do ano.

 

Redefinir suas metas com mais gentileza — pense em como você definiria metas para alguém que ama muito. Que tal oferecer esse mesmo cuidado a si mesma?

 

. Planeje com realismo - a maioria pensa no que precisa fazer a mais, melhor, por mais tempo. Poucos se perguntam: “do que eu posso abrir mão?”. 

 

Priorizar o que te nutre, não o que te esgota — tão importante quanto o que você quer alcançar é como você quer chegar lá. Incluir — e não negociar — os momentos que recarregam suas energias não é egoísmo. É inteligência emocional.

 

Cuidar da mente com o mesmo carinho que cuida do corpo — ela também tem ritmos, ciclos e limites. E eles são tão reais quanto os físicos.

 

Lembrar que não precisa resolver o ano inteiro em janeiro — que tal planejar só o primeiro trimestre? Depois, com mais clareza, você revisitar seu planejamento entendendo melhor o que é possível. 

 

Janeiro é só o começo — e ninguém precisa começar correndo.

 

Se você sentir que está demais, procure apoio.

A pausa também é parte da jornada.

 

Que este mês seja um convite para respirar, reorganizar e, quem sabe, recomeçar com mais ternura.